quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Cultivos transgênicos crescerão 20,9% em um ano no Brasil, diz estudo


A soja, que aumentará o uso de sementes transgênicas em 16,7%, é o principal cultivo do Brasil


As culturas transgênicas serão expandidas em 20,9% na atual colheita (2011-2012) no Brasil, até uma extensão de 31,8 milhões de hectares de plantações com sementes modificadas geneticamente, segundo estudo divulgado nesta terça-feira, 6.



A análise, elaborada pela empresa de consultoria Céleres, aponta que 85,3% das plantações de soja do país será cultivada este ano com variedades de sementes transgênicas.


A soja, que aumentará o uso de sementes transgênicas em 16,7% este ano, é o principal cultivo do Brasil e o produto agrícola mais exportado pelo país, que tem a China como seu maior cliente.


Desde a aprovação em 2005 de uma lei para regular o setor, a área plantada de soja transgênica passou de 5 milhões de hectares (24% do total plantado naquele ano) a 21,4 milhões de hectares (85,3% do total) na campanha atual, de acordo com os dados da empresa.


No caso do algodão, as sementes transgênicas chegarão a 32,3% da área cultivada no final desta temporada, com um aumento de 26,1% com relação à colheita passada.


O milho aumentará o uso de transgênicos em 32% e a introdução deste tipo de sementes será expandida a 67,3% dos plantios.


De acordo com as últimas previsões oficiais, o Brasil vai recolher na colheita de 2012 157,5 milhões de toneladas de cereais, leguminosas e oleaginosas e a área plantada chegará a 49,5 milhões de hectares.

A produção calculada para 2012 é ligeiramente inferior a calculada para deste ano, já que o Governo espera uma diminuição na produtividade da soja devido a fatores climáticos menos favoráveis em comparação aos de 2011, quando foi registrada uma colheita recorde de 157,9 milhões de toneladas.

do estadão.com.br
imagem Relatório sobre o Registo da Contaminação Transgénica 2007. 
O Relatório original (em inglês) pode ser consultado em http://www.greenpeace.org/raw/content/brasil/documentos/transgenicos/ge-contamination-register-2007.pdf). A síntese ou o “sumário executivo” em português desse Relatório encontra-se em http://www.greenpeace.org/raw/content/brasil/documentos/transgenicos/sumario-executivo-do-registro.pdf.

Falta de informação sobre agrotóxicos desmobiliza sociedade, avaliam pesquisadores e ativistas

do sinpaf.org.br
Em debate na 14ª Conferência Nacional de Saúde, em Brasília, presidente do SINPAF defendeu projeto de lei para por fim ao uso de agrotóxicos em dois anos, além da entrada do Ministério da Saúde no Conselho de Administração da Embrapa, “que é pública e deve ser não só no nome”
A falta de circulação de informações na sociedade sobre impactos e alternativas ao uso de agrotóxicos na agricultura brasileira, aliada à opção política do governo por um modelo agrícola que prioriza a utilização desses insumos, constituem atualmente o principal empecilho para a superação do trágico posto de liderança do país no ranking de consumo desses venenos no planeta.

Os apontamentos foram feitos na roda de conversa “O que plantamos e o que temos na nossa mesa”, realizada nesta quinta-feira (1/12) durante a 14ª Conferência Nacional de Saúde, em Brasília. Na atividade, também foi lançado o livro “Agrotóxicos, Trabalho e Saúde: vulnerabilidade e resistência no contexto da modernização agrícola no Baixo Jaguaribe-Ceará”, recém-publicado pela editora Expressão Popular.
Gislei Siqueira, do setor de Saúde do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), saudou a iniciativa e destacou a pertinência da promoção da discussão dos agrotóxicos no espaço da Conferência. “Os trabalhadores da saúde devem se apropriar desse tema, porque agrotóxicos não são problema só dos camponeses, mas da população do campo e da cidade. É questão de sobrevivência”.
Para Patrícia Jaime, da Comissão Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional, a alimentação é um direito inseparável do direito à saúde e precisa ser debatido por toda a população. “Precisamos levar o debate dos agrotóxicos para a agenda da promoção da saúde e para a declaração final da Conferência”, adiantou. Ela alertou, ainda, para a atuação irresponsável dos conglomerados de comunicação ao se furtarem da promoção da discussão do tema em seus veículos – principalmente nas TVs, que são concessões públicas.
O cineasta Silvio Tendler, diretor do documentário “O veneno está na mesa”, também demonstrou preocupação com a garantia da circulação de 
informações e de um debate consistente sobre o tema na sociedade. “Essa diversidade que vemos aqui hoje é maravilhosa, pena que não vemos isso na TV. Minha preocupação maior atual é que possamos construir políticas públicas de comunicação para que informações saiam dos gargalos em que se encontram para atingir toda a população. Não há discussão de verdade sobre o tema na grande imprensa. Mas aqui vejo interatividade entre sociedade civil e governo e podemos começar a discutir concretamente o motivo da não proibição dos agrotóxicos no Brasil”, ponderou.

Saúde é termômetro de desenvolvimento
Na opinião de Fernando Carneiro, da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco), a saúde é atualmente um dos principais 
indicadores de desenvolvimento social e humano no planeta. “Essa teoria é aplicável em todo o mundo, se virmos as epidemias atuais como a do superconsumo nos EUA. Esse é o momento de a saúde entrar no debate do PAC, por exemplo. Queremos ser maior consumidor de agrotóxicos ou maior produtor de orgânicos do planeta? A palavra que mais se aproxima da realidade brasileira é escândalo, porque nossas comunidades estão sendo literalmente pulverizadas. Não há fiscalização nem recurso para monitoramento de agrotóxicos na água, não temos informações. É um momento triste e temos de tomar atitude para mudar esse quadro, pensando na vigilância da saúde do desenvolvimento”, alerta.

Raquel Rigotto, organizadora do livro que reúne textos de 30 autores e autoras e apresenta reflexões sobre a cadeia produtiva que explora natureza e homem sem medir consequências ou se responsabilizar pelos impactos na saúde-ambiente, relatou experiências da pesquisa desenvolvida nos espaços de cultivo das transnacionais no interior cearense. “Encontramos 30% dos trabalhadores intoxicados agudamente no dia do exame. Isso sem falar nas doenças crônicas”, lembrou.
A pesquisadora também destacou o peso da indução do governo à utilização dos agrotóxicos, por meio das políticas do Ministério da Agricultura e do PAC, além de isenção de impostos. “Instrumentos como o nosso livro e o filme do Silvio Tendler servem para que as pessoas possam ajudar a dizer ao governo que esse modelo não gera saúde, não garante soberania alimentar. Se a agricultura tem dez mil anos e os agrotóxicos têm 60, por que se construiu o mito de que sem veneno não se produz?”, questionou.
O presidente do Sindicato Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário (SINPAF) segue a mesma linha crítica. “O uso de agrotóxicos na agricultura é respaldado por políticas públicas elaboradas por gestores que dão sequência a um modelo que não é o que os trabalhadores querem. A utilização de venenos é oriunda da ditadura militar, que criou um modelo de agricultura da morte. Isso é opção política das elites. O argumento de que o alimento precisa de agrotóxico é mito. Dentro da Embrapa, por exemplo, há tecnologia e conhecimento que viabilizam agroecologia e dispensam adubação química, mas o que não existe é prioridade na Embrapa nem no governo de forma a viabilizar esse modelo”, atestou.
Alternativas
A partir do entendimento comum de que para superar esse cenário é preciso avançar no diálogo e na mobilização, os participantes fizeram sugestões de frentes de combate. “É preciso suspender a isenção de impostos para fabricantes de agrotóxicos e revertê-los para o SUS, proibir a pulverização aérea e apoiar políticas de transição agroecológica”, elencou Raquel Rigotto.

O presidente do SINPAF lembrou que o sindicato realizou seu 10º Congresso com diretrizes claras de fortalecimento da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, e defendeu um projeto de lei para por fim ao uso de agrotóxicos em dois anos, além da entrada do Ministério da Saúde no Conselho de Administração da Embrapa, “que é pública e deve ser não só no nome. É importante ter movimentos populares e ministérios que possam ajudar no monitoramento, execução das políticas públicas. Porque pesquisa que não tem lado já mostra o lado que tem: nós temos lado, do desenvolvimento humano, lado da vida”.

Green Project Awards lança sua 1ª edição no Brasil e premia trabalhos voltados ao desenvolvimento sustentável de empresas, estudantes e ONG’S

Iniciativa, que já chegou a sua 4ª edição em Portugal, visa distinguir e reconhecer as melhores práticas em projetos que valorizem a sustentabilidade

As práticas de uma sociedade sustentável terão reconhecimento inédito no Brasil. Organizado pelo Instituto Nacional de Tecnologia (INT/MCTI) e pela GCI Portugal, com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e do Ministério do Meio Ambiente, o Green Project Awards (GPA) chega ao País  para mobilizar população, empresas e entidades com iniciativas voltadas ao desenvolvimento sustentável e à promoção de práticas sustentáveis. A primeira edição brasileira do prêmio – que terá seu lançamento no próximo dia 8 de dezembro, no Rio de Janeiro – pretende, além de atuar como complemento a um movimento de conscientização para a importância do equilíbrio ambiental, econômico e social, dar visibilidade às entidades, pessoas ou instituições geradoras de informação com mensagens pró-sustentabilidade.
“Chegou a hora de recompensar a criatividade dos brasileiros na promoção de práticas sustentáveis”, afirma Domingos Naveiro, Diretor do Instituto Nacional de Tecnologia e co-organizador da premiação. “Fora do Brasil o GPA já é um meio para a sensibilização e conscientização da sociedade civil e uma vitrine para a inovação, criatividade e eficácia, promovendo a discussão produtiva de temas como o fim da pobreza, biodiversidade ou a inclusão social” explica José Manuel Costa, Presidente da GCI, co-organizadora do GPA.
Lançado em 2008 em Portugal, o Green Project Awards já reconheceu 28 casos de sucesso, eleitos entre as mais de 500 candidaturas nos últimos anos. Voltado a um público variado que inclui jovens, Institutos de Ensino e Pesquisa, ONGs, Associações de classe, empresas e representantes da administração pública, o GPA Brasil irá premiar as categorias Iniciativa Jovem, Pesquisa e Desenvolvimento, Produto ou Serviço e Campanha de Mobilização. Poderão participar iniciativas e/ou projetos criados e desenvolvidos por jovens (até aos 24 anos;  produtos ou serviços já implementados nas áreas de desenvolvimento social, econômico, ético e ambiental; campanhas e ações de sensibilização e informação e projetos que já tenham sido objeto de dissertação ou publicação.
Os candidatos poderão realizar suas inscrições por meio da plataforma digital do GPA entre Janeiro de 2011 e Março de 2012. A cerimônia para entrega dos prêmios acontecerá no dia 19 de junho de 2012, no Rio de Janeiro, no âmbito da Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável – Rio+20, reforçando a luta contra a pobreza e exclusão social.
Além do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e do Ministério do Meio Ambiente, o GPA Brasil conta com o apoio da Prefeitura do Rio de Janeiro e do Governo do Estado do Rio de Janeiro através da Secretaria do Estado do Ambiente.
Sobre os Organizadores
O Instituto Nacional de Tecnologia (INT) é uma instituição de caráter multidisciplinar, integrante do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Criado em 1921, o INT busca soluções tecnológicas que harmonizem crescimento econômico, justiça, bem estar social, conservação ambiental e utilização racional dos recursos naturais, tendo como objetivo o desenvolvimento sustentável.
A GCI é a Consultora portuguesa com maior expertise na criação e implementação de estratégias de Engajamento Público. Lançou, em 2008, em conjunto com a Agência Portuguesa do Ambiente e a Quercus, o Green Project Awards, que após quatro edições, continua como meio para a sensibilização e conscientização da sociedade civil para o equilíbrio ambiental, econômico e social
por Julia Panessa/inteligemcia.com.br /edelman.com.br
http://www.greenprojectawards.pt/2011/

O modo como se pensa a divisão da terra

 
Com Ciência/ por Isabela Palhares
No decorrer de nossa história, a questão fundiária no Brasil recebeu diferentes formas de atenção. Os diversos focos, os interesses e as articulações, ou a forma de exploração da terra, são elementos que acabam por formar modos de pensamento sobre a divisão da terra. O Brasil é o único país com extensão continental, em todo o mundo, com estrutura fundiária semelhante à de sua fundação. A primeira legislação fundiária brasileira tem origem no regime sesmarial na época colonial, mas traz consequências para o país até hoje. A lei de sesmaria foi criada em uma situação muito específica para Portugal, e quando implantada no Brasil, que tinha características completamente diferentes, criou um problema.

Como explica o economista Nelson Hideiki Nozoe, da área de história econômica do Brasil, na Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (Usp), as terras eram cedidas e, se fosse comprovado um bom aproveitamento, elas eram doadas permanentemente. Só que no contexto brasileiro isso era inviável, em virtude da dificuldade política e estrutural de controlar uma grande e extensão territorial e, na época, com uma pequena população indígena. “O curioso, é que não há qualquer lei ou regulamento esclarecendo o modo como o aproveitamento deveria ser comprovado (quais/quantas culturas, quais benfeitorias etc). Ademais, a falta de topógrafos e a forma vaga como as cartas descreviam a área doada dava margem a toda sorte de abuso, principalmente a de se ampliar a extensão da terra doada.”, explica Nozoe.

Essa questão do aproveitamento das terras traz à tona um conceito que é muito discutido atualmente, o da função social da terra. Ou seja, que toda propriedade deveria ser aproveitada por alguém e não permanecer ociosa. De acordo com Lígia Osório Silva, coordenadora do Núcleo de Estudos Estratégicos e docente do Instituto de Economia, ambos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), esse conceito é criado a partir da Constituição de 1946. Mas ela explica que “a noção de função social da terra coloca um limite ao direito de uso e abuso da propriedade da terra por parte dos seus donos e introduz a obrigatoriedade (dentro dos limites estabelecidos pela lei) de tornar a terra produtiva, dado o seu caráter social”.

No entanto, esse modelo de política agrária, de aproveitamento das terras, teve pouca influência na estrutura altamente concentrada da propriedade no Brasil. Mas, apesar das poucas mudanças efetivas, sempre houve movimentos por uma melhor distribuição de terras no país. Eles se mostraram fortes na década de 1960, com as reformas de base do então presidente João Goulart (que pretendia desapropriar terras próximas a ferrovias, estradas e açudes da União), foram reprimidos pelos militares, após o golpe de 1964, e ressurgiram a partir da década de 1980 com as ocupações de fazendas pelos sem-terra.

Outro presidente que trabalhou pela distribuição de terras no Brasil foi Castello Branco, que criou o Estatuto da Terra, até hoje considerado um bom instrumento jurídico para se fazer uma reforma agrária. No entanto, esse estatuto tratava apenas em parte da reforma agrária, sendo que foi colocada em prática apenas a parte que focalizava a política agrícola. Como relembra Lígia Osório, apesar de o estatuto prever a reforma agrária e a penalização dos latifúndios improdutivos, poucos resultados foram efetivamente alcançados. “Por exemplo, a utilização do imposto territorial como forma de desencorajar a manutenção de grandes latifúndios improdutivos não surtiu o efeito desejado, pelo fato dos proprietários continuamente se recusarem a pagá-lo (sendo anistiados recorrentemente)”, diz.

Mais recentemente, no governo de José Sarney, havia um plano para assentar 1,4 milhão de famílias até o final de seu mandato, em 1990. Mas esse plano, não foi cumprido, e apenas 90 mil famílias foram assentadas. Fernando Henrique Cardoso foi o primeiro presidente a fazer uma grande reforma, assentou quase 2 milhões de brasileiros entre 1995 e 2002, dividindo uma área de 18 milhões de hectares, maior que o Uruguai. Ele gastou 25 bilhões de reais para a aquisição de terras e a instalação de assentamentos, mas a reforma agrária entrava no plano de governo sem destaque, e só entrou na agenda por causa da pressão do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST). O presidente Luis Inácio Lula da Silva foi o primeiro a ser eleito com o apoio de setores do MST, mas os conflitos recomeçaram quando Lula demorou a cumprir suas promessas.

A política agrária atual prevê o assentamento de trabalhadores em módulos rurais e a alta concentração de terras nas mãos de poucos no país está longe de ser combatida. Lígia Osório explica que ainda existem no Brasil muitas terras devolutas mas que, devido aos interesses de indivíduos e empresas, não é possível proceder a reforma. “Elas são objeto da cobiça de particulares (indivíduos e empresas) e o governo não tem tido muito sucesso em coibir a grilagem, a posse de latifúndios gigantescos e a situação de extrema violência que essa situação provoca no campo. Violência que, hoje em dia, acontece sobretudo nas regiões Norte e Centro-Oeste”, diz.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Idas e voltas de mulheres da Amazônia

por Glauce Monteiro / Dezembro 2011
foto Karol Khaled/UFPA-JORNAL BEIRA DO RIO

Pesquisa identifica Suriname e países europeus
como destinos mais frequentes


Pela primeira vez, o Censo da população brasileira, realizado em 2010 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), incluiu perguntas sobre a migração internacional, questionando não apenas os motivos de entrada e saída do País, mas também os destinos e o tempo de permanência. Quando as respostas forem divulgadas, saberemos mais sobre um fenômeno até o momento quase invisível na Amazônia: a migração internacional de mulheres.
Ainda hoje, não se sabe ao certo quem elas são, para onde vão e a importância do que elas fazem, mas o fenômeno da migração internacional de mulheres na Amazônia chama atenção pela sua dupla invisibilidade. Segundo Marcel Hazeu, aluno de doutorado do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (Naea) da Universidade Federal do Pará (UFPA), de um lado, as pesquisas nacionais sobre migração retratam a Amazônia de forma homogênea. Por outro lado, as pesquisas sobre migração na Amazônia ainda não estabelecem diferenciação entre a migração masculina e a feminina, e aquelas que incluem as mulheres, referem-se apenas ao tráfico internacional de pessoas.
Em sua dissertação de mestrado, orientada pela professora Marília Emmi, o pesquisador analisou a migração de mulheres em periferias de Belém. "As mulheres que migram não são todas vítimas de tráfico, nem saem especificamente para exercer a prostituição. A realidade dessas idas e vindas internacionais é mais complexa e envolve a mulher que migra, mas também toda a sua família e a sua comunidade. A migração é algo maior e presente no dia a dia dos bairros periféricos". A pesquisa observou trajetórias, destinos, causas e consequências desta migração para quem migra e para as famílias que permanecem nas periferias da cidade.

Perfil é de jovens que vivem momento de crise

Entre os anos de 2009 e 2011, Marcel Hazeu entrevistou 27 famílias com mulheres migrantes. Em cada uma, ele identificou uma "pioneira" e suas "seguidoras". "Nos anos seguintes, irmãs, sobrinhas, primas, cunhadas seguem essa primeira mulher. Na pesquisa, foram identificadas 54 mulheres migrantes e dois fluxos migratórios mais marcantes", revela. O primeiro dirige-se ao Suriname e a alguns países localizados ao norte da América do Sul. O segundo destina-se a países europeus.
O perfil dessas mulheres é parecido. "São jovens que estão passando por um momento marcante: divórcio, maternidade, desemprego ou estão repensando e reavaliando suas vidas. O destino não é exatamente 'escolhido'. Ele está relacionado mais ao contato ou à pessoa que permite ou motiva a migração do que às características do lugar. Muitas vezes, essas mulheres não sabem nada sobre o lugar para onde estão indo", diz o pesquisador.
A migração acontece sempre em redes. "Ou se conhece alguém que está lá, ou alguém que está indo. Esta é a única segurança e a garantia de entrada no país estrangeiro. Se, no aeroporto, a migrante tiver alguém esperando por ela, a migração fica mais fácil e tem mais chances de se consolidar. Mesmo o tráfico de pessoas e a migração ligada à prostituição acontecem em redes", explica Marcel Hazeu.
Das 27 pioneiras, 11 foram para o Suriname, local com maior atração, as outras 16 foram para países europeus. Mas o lugar em que as entrevistadas viviam antes de voltar para o Brasil nem sempre é o mesmo do destino inicial. Assim, embora, no início, 11 tenham migrado para o Suriname, apenas oito delas voltaram diretamente de lá. As demais seguiram para outros lugares. "Quando a segunda mulher migra, ela vai 'atrás' da primeira. A seguidora traça o mesmo trajeto ou parte deste trajeto, justamente pela segurança que as redes representam", compara Marcel Hazeu.

Europa: casamento é estratégia para permanecer

Segundo Marcel Hazeu, a permanência é uma das principais diferenciações entre as mulheres que migram para a América do Sul ou para a Europa, "a maioria das mulheres que vai para o Suriname volta. Já a maioria que vai para a Europa permanece. No Suriname, as atividades estão muito ligadas ao garimpo e são naturalmente temporárias". Entre as 11 pioneiras que foram para o Suriname, apenas uma continua no país. Enquanto das 16 que migraram para a Europa, apenas três retornaram para o Brasil.
As leis de migração também têm um papel decisivo. "No Suriname, aspectos como a relação mais próxima com o Brasil, a fluidez maior na fronteira, a não perseguição dos migrantes e a maior possibilidade de conseguir autorização de trabalho favorecem a migração, diferente do que ocorre na Europa", diz.
As rígidas leis de migração na Europa tornam o casamento uma das principais alternativas para permanência. O que está relacionado a uma questão de gênero e ao imaginário. Se muitas mulheres migram com a ideia de casar com europeus, também "é forte na Europa a ideia de que mulheres latinas são boas para casar", revela o pesquisador.
Entre as mulheres que conseguiram permanecer na Europa, todas casaram. "Algumas por amor, outras por conveniência. Alguns relacionamentos acabaram em divórcio, mas outros deram certo mesmo tendo se desenvolvido dentro desta lógica de casar para não voltar para o Brasil. E as redes também atuam para apresentar potenciais esposas e maridos". O pesquisador relata a situação de um casal que iniciou a relação porque ambos estavam sozinhos, mas asseguram que, nove anos depois, estão apaixonados, "eles dizem que o amor também se constrói".
As mulheres que migraram para o Suriname também começam a estabelecer relações mais duradouras naquele país, mas esses relacionamentos acontecem no interior da comunidade brasileira migrante, com pouca interação com surinameses.

Preconceito está sempre presente

Para o pesquisador um dos principais ganhos da migração é a visão crítica da realidade. "Nenhuma das mulheres tem uma imagem romântica do Suriname ou da Europa. Elas voltam e reavaliam sua realidade com uma visão mais crítica e este é um dos principais ganhos da migração: a releitura do mundo, do ser mulher e de sua própria vida". Um aspecto negativo é o preconceito, dentro e fora do Brasil.
"Elas são sempre as outras. Lá fora, são as migrantes, as estrangeiras. No Brasil, ao retornarem, carregam o estigma da prostituição, mesmo quando não foram prostitutas ou permaneceram pouco tempo na prostituição. Nenhuma diz abertamente ou com orgulho: eu fui para a Holanda, por exemplo. O casamento aparece como um sistema de proteção que as torna 'respeitáveis', é uma estratégia para se revalorizar na periferia, embora a acusação da prostituição permaneça de forma velada", avalia Marcel Hazeu.
O preconceito torna difícil a interação dessas mulheres. "Ao longo da pesquisa e do mapeamento das redes, umas indicavam outras, mas não interagiam entre si. Vi casos em que as duas pessoas se conheciam, mas nunca conversaram sobre o assunto", lembra o pesquisador.
Um dos conceitos investigados durante a pesquisa foi a reterritorialização. "Esse conceito está relacionado a questões como 'a que lugar eu pertenço'? E isso significa que uma pessoa pode possuir algum domínio sobre o lugar e que este significa algo para ela. Mas no sentido político, também se relaciona com a possibilidade de influenciar este espaço. A migração, nestes casos, é um processo sempre paralelo ao da marginalização", explica o pesquisador.
Por um lado, a migração envolve a desterritorialização: são pessoas que saem porque não sentem que fazem parte deste espaço. De outro, é um esforço para se reterritorializar, seja lá fora, fixando-se; seja ao retornar, na esperança de ser valorizada pelo acúmulo de dinheiro ou pela diferenciação em relação aos que não migraram.
"Por isso é valido incentivar a formação de uma imagem mais plural da mulher migrante, associando a imagem de 'trabalhadora' a essa mulher. É preciso reconhecer que a migração vai além da prostituição e do tráfico de pessoas e que é bem mais cotidiana e complexa do que sabemos até o momento", conclui.

EUA começaram a enterrar um milhão de toneladas de CO2 no subsolo

da Green Savers
EUA começaram a enterrar um milhão de toneladas de CO2 no subsoloOs Estados Unidos começaram este mês a enterrar um milhão de toneladas de CO2 no subsolo do Illinois, este é o primeiro projeto-piloto de sequestro e armazenamento geológico de gás com efeito de estufa do país.
O CO2 está sendo capturado de uma fábrica que produz etanol em Decatur, no estado do Illinois, e ficará “permanentemente armazenado” a cerca de 1,6 quilómetros de profundidade, no aquífero salino de Mount Simon Sandstone.
O projeto desenvolvido pelo consórcio Midwest Geological Sequestration,  é um dos sete criados pelo departamento de energia norte-americano para promover as tecnologias de captura e armazenamento de carbono no país.
Segundo informações da imprensa, este local tem todas as características geológicas para armazenar entre 11 e 151 mil milhões de toneladas de CO2. O Illinois emite mais de 265 milhões de toneladas de CO2 por ano, sendo a maioria das 126 centrais de produção de energia a carvão.
O projeto levou à construção de uma central que separa a água do CO2, sendo este depois conduzido, por uma conduta, para um poço, onde é injectado no subsolo.
“Esta poderá ser uma opção importante nas estratégias de mitigação das alterações climáticas”, explicou o responsável pelas Energias Fósseis do departamento de energia norte-americano, Chuck McConnell.
Existem hoje, em todo o mundo, mais de 50 projetos de captura e sequestro de carbono. A Agência Internacional de Energia estima que estas tecnologias possam reduzir as emissões globais de gases com efeito de estufa em 19%.

Mato Grosso do Sul, a nova fronteira do eucalipto

do wrm.org

A região do Brasil, e talvez do mundo, onde a monocultura do eucalipto e produção de celulose se expande mais rapidamente é a do estado de Mato Grosso do Sul, especificamente na micro-região de Três Lagoas.

Atualmente, está instalada na região a Fibria Celulose - uma sociedade conjunta entre Aracruz e Votorantim - e uma fábrica de papel controlada pela norte-americana International Paper.

A fábrica de celulose Fibria produz 1,3 milhões de toneladas de celulose por ano e planeja investir R $ 3.600 milhões (mais de US $ 2 milhões) para construir uma segunda unidade, com abertura prevista para 2014. Assim, a empresa vai aumentar a produção para 3 milhões de toneladas por ano. Hoje, a Fibria tem 150 mil hectares de eucalipto e os planos são para duplicar esta superfície.

Além deste empreendimento, uma empresa chamada Eldorado Brasil está construindo uma fábrica na mesma região para produzir 1,5 milhão de toneladas de celulose. A fábrica será inaugurada em novembro de 2012. A empresa ocupa 150 000 hectares de eucalipto.

Também a chilena Arauco e a portuguesa Portucel mostraram interesse em investir em plantações de eucalipto e em fábricas de celulose no Mato Grosso do Sul.

Essa expansão desenfreada foi isenta pelo governo do estado da obrigação de elaborar estudos e relatórios de impacto ambiental, o que levou a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMS) em conjunto com outras universidades e organizações, a organizar em Três Lagoas o primeiro simpósio para discutir "A formação de celulose, papel complexo no Mato Grosso do Sul: limites e perspectivas", em 30 de junho, 1 e 2 de julho de 2011.

De acordo com um estudo (1) apresentado durante o seminário, a partir da década de 1970 a área passou por um intenso processo de pecuarização causando um grande conflito agrário. No estado de Mato Grosso do Sul fazendas com mais de 1000 hectares representam 10% das propriedades, mas ocupam 77% da superfície (dados de 2006). Além disso, nos anos de 1970 foi introduzido no estado uma área de eucalipto, que foi utilizado na produção de carvão. Como consequencia, o estado de Mato Grosso do Sul passou a ter 8 mil trabalhadores em condições de escravidão na década de 1990, bem como casos de trabalho infantil.
Mais recentemente, a monocultura de árvores começaram uma nova expansão, desta vez para produzir celulose. Entre 2005 e 2009, a área de plantio na microrregião de Três Lagoas dobrou de 152.000 a 308.000 hectares, quase todos de eucalipto. Expansão prevista dessa superfície em 2020 é para 1 milhão de hectares.

Essa expansão está associada a uma série de mudanças significativas em áreas rurais e urbanas. Produção de leite de pequenas propriedades na cidade de Três Lagoas foi reduzida de 11 a 5 milhões de litros de leite / ano entre 1995/96 e 2006. Produção de alimentos também diminuiu e, por exemplo, o feijão é quase inexistente, em uma área dominada por grandes propriedades. Hoje, a pequena propriedade ocupa 30 000 hectares em uma região com um total de 4.000.000 hectares.

Com o aumento descontrolado no valor das terras, os grandes proprietários podem obter mais ganhos, vendendo ou arrendando suas terras, aumentando a enorme concentração agraria que bloqueia o processo de reforma agrária da terra.

Há relatos de desmatamentos e falências de negócios locais. Os 10 assentamentos da reforma agrária na área, com 1.147 famílias estão sendo encurralados pelo eucalipto. Nas áreas urbanas, com o afluxo de trabalhadores que chegam para a construção da fábrica, problemas de superlotação na habitação foram constatados.

Constatou-se também aumento das taxas de violência, por exemplo, a violência doméstica contra a mulher, que chegou a triplicar nos últimos anos.

A visita de campo e discussões com moradores locais indicam que a maior preocupação dos agricultores que vivem perto das plantações é a aplicação de pesticidas. Dizem que as empresas costumam usar o método de aplicação aérea, que deu origem a reclamações devido ao odor desagradável. Também relatam que várias fontes de água conhecida secaram. Outra preocupação é o esgotamento do campo com a venda e locação de fazendas, o que enriqueceu os proprietários de terras, mas expulsou os moradores e trabalhadores agrícolas. 

 Alguns começaram a lutar pela reforma agrária e há alguns anos que o Incra (2) não libera os recursos na área pra  novos assentamentos e, portanto, tornando mais difícil a vida dos agricultores assentados. Outras famílias são forçadas a encontrar trabalho e alojamento na cidade, onde o custo de vida tem aumentado significativamente, devido à especulação imobiliária.

O que chama a atenção é a presença de árvores isoladas, espécies do cerrado, na área de plantio de eucalipto.  De acordo com um habitante local, essas árvores tendem a morrer entre as árvores de eucalipto. Além disso, as poucas árvores nativas são expostas à aplicação de pesticidas e estão isoladas da flora e fauna da região, ausente em monocultura, como se fosse um "museu ao ar livre".

Independente se morrerão ou se sobreviverão, a presença dessas árvores, parece representar bem a situação do povo da região de Três Lagoas, onde as alternativas a este modelo não encontram espaço no meio de um mar crescente de eucalipto. Árvores do cerrado, como a área do seu povo, foram "tomadas" por um modelo de celulose de eucalipto que está crescendo com o total apoio das autoridades estaduais e federais, enriquecendo alguns e deixando um futuro incerto para a maioria da população.

Por Winnie Overbeek, coordinador del WRM.
(1) Kudlaviz, Mieceslau. Dinámica agraria y la territorialización del complejo celulosa/papel en la micro-región de Três Lagoas/MS. Disertación de Maestría del programa de Posgrado en Geografia, UFMS, Três Lagoas, 2011
(2) Instituto Nacional por la Colonización y la Reforma Agraria
Tradução - Redação do colunadosardinhaecologia

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Assentamento baiano é referência na produção de alimentos

Do G1 BA
Quem mora no assentamento Terra Vista, no município de Arataca, vivem em harmonia com a natureza. “A solução da gente é viver na roça, por ter o nosso local para produzir alimento e a paz que a gente vive na natureza”, diz Benedito Ferreira.


Cinquenta e cinco famílias moram no assentamento. Cada uma tem quatro hectares de onde tiram o sustento. Feijão, mandioca, banana, açaí, cacau e outros tipos de cultura. Tudo é cultivado sem o uso de produtos químicos. As práticas de manejo fazem do assentamento uma referência em agroecologia.

A planta que se decompôs vira adubo, a folha do feijão de porco ajuda a controlar o ataque de formigas, nos pés de cacau. Com convivência com a terra, os assentados adquiriram experiência, mas foi o conhecimento em sala de aula que ajudou a cada família a mudar o sistema que vivem. No assentamento estudam 675 alunos em cinco cursos técnicos e um em bacharelados em agronomia.

“A gente pretende conhecer novas técnicas, adquirir novos conhecimentos e utilizá-los nas nossas áreas de reforma agrária e dessa forma melhorar nossas áreas e dessa forma melhorar não só a nossa produção pessoal, mas também a produção das demais famílias assentadas. Então se a gente conseguir melhorar a produtividade, consequentemente a gente melhora a renda e a qualidade de vida das famílias”, garante o técnico em agropecuária – Marcos Vinícius do Nascimento.

Cacau

O assentamento tem 904 hectares, 350 são voltados para o cultivo do cacau, principal cultura beneficiada pelo modelo natural. O fruto se desenvolve em meio ao sistema cabruca, em que a mata atlântica é preservada. Outra parte da produção se dá na área onde foram plantadas várias árvores frutíferas que ajudam a recuperar a mata ciliar. O potencial ecológico atraiu parceiros como o Instituto Cabruca oferece entre outros recursos, a capacitação.
“Essas áreas que em média estavam entre dois, três arrobas de cacau por hectares, agora está com 94 arrobas de cacau por hectare, então incrementa bastante a produção. Isso tudo em cinco anos de trabalho. Hoje os assentados entendem que a produção orgânica dá frutos”, explica o coordenador do instituto, Tiago Guedes Viana.
Do próprio bioma que se desenvolve são retiradas sementes de plantas frutíferas e nativas. Elas são plantadas em um viveiro com capacidade para 100 mil mudas por ano e no local, recebem a manutenção necessária.


Perto de concluir o curso técnico em agroecologia, Sálvio Oliveira, pretende passar o conhecimento para outras pessoas. “Quero passar o conhecimento para todos que queiram saber sobre o assunto”, diz.